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Trajetória de professor do ICMC é reconhecida pela Sociedade Brasileira de Computação

José Carlos Maldonado recebeu o prêmio de mérito científico da instituição

De aluno de graduação a diretor, ele sempre teve sua história ligada ao Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos. Foi durante essa trajetória que José Carlos Maldonado desenvolveu grande parte de sua produção científica, reconhecida pela Sociedade Brasileira de Computação (SBC).

No último dia 2 de julho, Maldonado recebeu o prêmio de Mérito Científico durante a abertura do congresso anual da SBC, realizado em São Paulo. A premiação é concedida uma vez por ano, a partir de indicações da comunidade avaliadas por uma comissão, aos membros da Sociedade que produziram contribuições científicas ou técnicas em computação.

O início dessa jornada deu-se em 1974, quando ele ingressou como aluno na USP, no curso de engenharia elétrica da Escola de Engenharia de São Carlos. Mas não demorou muito para que ele entrasse no mundo da computação. Junto com a engenharia, fez ênfase em computação eletrônica no ICMC, conquistando o diploma em 1978.

O caminho depois da graduação foi importante para definir o futuro da carreira do professor. Em 1979, conquistou uma vaga no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), onde foi assistente de pesquisa e, em 1982, concluiu seu mestrado. O projeto, intitulado Plataformas Experimentais de Rastreio Orientadas a Balões Estratosféricos, tratava sobre a implementação de um sistema de telemetria e telecomando em tempo real. “Era o início de uma relação duradoura com a área de teste de software”, salienta. No ano seguinte, ainda como funcionário do INPE, Maldonado foi para o Canadá trabalhar com desenvolvimento de software para satélites, na SPAR Aerospace.

Retorno ao ICMC – Em 1984, Maldonado mudou-se para São Carlos por motivos familiares e tornou-se docente do ICMC. Iniciou seu doutorado na Unicamp e, durante o período, fez um estágio na Technical University of Denmark. “A política interna do ICMC sempre incentivou que os docentes fizessem doutorado, preferencialmente no exterior”. A linha de pesquisa de seu doutorado teve ligação com o período em que esteve no INPE. “O pensamento que norteou o trabalho tem a ver com enxergar softwares como produtos. Nós passamos a desenvolver teste de forma sistemática e rigorosa, baseado em critérios e ferramentas, produzindo evidências da qualidade do produto de software”.

Nessa mesma época, começaram a ser intensificados os eventos científicos nas mais diversas áreas da computação, também promovidos pela SBC. A participação de Maldonado nesses eventos foi importante para sua entrada nas primeiras redes de colaboração, que são projetos financiados por agências de fomento envolvendo a solução de problemas complexos, e por isso demandam a formação de equipes bem estruturadas. “Hoje, as redes de colaboração envolvendo a academia e a indústria são fundamentais para o desenvolvimento da ciência”, afirma.

A primeira rede de que Maldonado participou foi a do projeto Teste e Validação de Sistemas de Operação, patrocinado pela ONU, que visava estabelecer uma estratégia de teste e validação de software para o departamento responsável pelo desenvolvimento dos sistemas de operação para as empresas do sistema Telebrás. Em seguida, coordenou no Brasil o projeto Plataforma para Validação e Integração de Software em Sistemas Espaciais, que contou com pesquisadores brasileiros e franceses.

Durante uma edição do Simpósio Brasileiro de Engenharia de Software, no Rio de Janeiro, Maldonado estabeleceu um contato que o levou a fazer pós-doutorado na Purdue University, nos Estados Unidos. A partir dessa experiência, integrou como coordenador brasileiro o projeto Software Quality Across Different Regions, que envolvia pesquisadores da Venezuela, Chile, Brasil, Itália, Dinamarca e Inglaterra. Retornando ao Brasil, contribuiu com a edição do livro Qualidade de Software: Teoria e Prática, a partir da rede de colaboração existente em torno do Simpósio Brasileiro de Engenharia de Software, com envolvimento de pesquisadores da indústria.

Ampliando a rede – O QualiPSo (Quality Platform for Open Source Software) também foi coordenado no Brasil por Maldonado, e influenciou na criação do Centro de Competência em Software Livre da USP (CCSL-USP) e do Núcleo de Apoio à Pesquisa em Software Livre (NAPSoL). “Tivemos resultados fantásticos na perspectiva de open source. Nós criamos um curso de teste de software que foi dado para a indústria e a academia, totalmente baseado em software livre. Nós já tivemos mais de 20 mil acessos nesse material”, afirma. A edição de um livro sobre essa experiência está em curso. Maldonado também coordenou, pelo lado brasileiro, o projeto READERS, uma parceria internacional que propiciou a criação da área de Engenharia de Software Experimental na América do Sul.

Recentemente, coordenou o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Sistemas Embarcados Críticos (INCT-SEC), rede que envolvia mais de 350 pesquisadores de 9 universidades, além de diversas indústrias. Essa iniciativa teve como objetivo encontrar soluções com veículos autônomos para aplicações estratégicas como agricultura, meio ambiente e defesa.

Em um viés mais acadêmico, o pesquisador também coordenou um Projeto de Cooperação Acadêmica (Procad), da CAPES, envolvendo a Universidade Estadual de Maringá (UEM) e a PUC-RS, que visava promover a integração e capacitar recursos humanos de alto nível em engenharia de software. Atualmente, coordena outro Procad, envolvendo a UEM e a Universidade Federal de Alagoas, com o mesmo objetivo, além de abordar Recursos Educacionais Abertos.

Para Maldonado, as redes de colaboração sempre propiciaram motivação em um contexto muito rico, com tópicos inovadores e grandes desafios. “Em todos esses projetos, a amizade permeava as relações. Eles dão oportunidade de se inserir em mais redes e elas levam à formação pessoal. Por exemplo, em várias delas, meus alunos faziam contatos com grandes pesquisadores do Brasil e do exterior, e iam fazer pós-doutorado ou trabalhar em centros de pesquisa avançada”, diz. Ele chegou a formar mais de 50 alunos, entre mestres e doutores, com envolvimento em redes de colaboração.

Maldonado, que é pesquisador 1A do CNPq, publicou mais de 300 artigos em periódicos e eventos científicos e produziu diversos livros e capítulos de livros, um deles contemplado com o prêmio Jabuti em 2008.

SBC e agências de fomento – Maldonado começou a se envolver com a SBC participando de eventos e apresentando trabalhos, mas não demorou para passar a organizá-los. Em 1997, recebeu um convite para fazer parte atuar diretor de educação. Nessa função, contribuiu para a consolidação dos currículos de referência em computação. Também atuou como vice-presidente de 2003 a 2007 e, de 2007 a 2011, foi presidente da instituição. Este ano, foi eleito para o conselho da Sociedade, cargo que ocupará até 2021.

Além disso, Maldonado foi coordenador de área em agências de fomento, como CAPES, CNPq e FAPESP. “São nesses lugares onde se formulam políticas de avaliação dos cursos e de fomento à ciência”, afirma. Sua atuação o levou a receber o título de Comendador da Ordem Nacional do Mérito Científico em 2008.

Atualmente, como professor sênior do ICMC, Maldonado afirma que é uma honra ganhar o prêmio de Mérito Científico da SBC: “Receber esse prêmio me leva, primeiro, a um sentimento de agradecimento a todos os colaboradores, amigos e pesquisadores que trilharam comigo os diversos caminhos, e às agências de fomento nacionais e internacionais. Também causa uma retrospectiva. Ele me faz olhar para o passado, e é muito gratificante relembrar de tudo que passei. E me leva a outro sentimento, de que não posso parar e que ainda há muito a se fazer no país”.

 

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