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Morre a Dona Néia, a principal defensora das visitas na Penitenciária

Ela foi encontrada morta em casa um dia depois de aparentemente sofrer agressões físicas

Considerada uma das principais lideranças quando o assunto era a organização para o acesso dentro da Penitenciária de Araraquara, além de uma defensora da causa, a comerciante Claudineia Campos, a Dona Néia, foi encontrada morta, hoje, dentro da sua casa em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Ela morava lá há algum tempo depois ir cuidar do pai. A causa será apurada. Um dia antes, ela apareceu com lesões pelo corpo.

O corpo será trazido para Araraquara. A família está em choque. Esse texto, inclusive, escrevo bastante fora do padrão jornalístico – é quase um artigo – por ter convivido e acompanhado a luta da Dona Néia por mais dez anos. Lembro como se fosse hoje. Era maio de 2006, já passava das 20 horas, quando o telefone toca na redação informando sobre uma movimentação dentro da Penitenciária de Araraquara. Eu e o fotógrafo, na época, colaboradores da Tribuna Impressa, fomos até a porta do presídio. Não havia acontecido nada demais.

Mas ali, em meio ao grupo de mulheres e mães de sentenciados, uma se destacava: era Claudineia de Campos, a Néia. Ela conhecia bem o sistema penitenciário. O marido, até então, estava preso condenado por latrocínio (roubo seguido de morte). Ela, do lado de fora, sustentava a família e os três filhos. Era dona de um bar, em frente a portaria da unidade. Local visitado por muita gente: parentes de presos, agentes e, quase sempre, policiais fazendo revistas depois de receberem denúncias.

Quis o destino que no dia seguinte explodisse a megarrebelião. Foi ela quem me avisou. Dona Néia foi quem liderou o movimento dos familiares. Desde então, sempre mantínhamos contato. Sim, ela sempre tinha informações privilegiadas e era uma conhecedora do sistema penitenciário paulista. Respeitada pelos agentes, ouvida por diretores em momentos críticos e conselheira para aquela infinidade de mulheres que semanalmente estavam ali para visitar o parente encarcerado.

Foi Néia que, no passado, denunciou prontuários de presos jogados no lixo. Foi ela também quem organizou encontros entre familiares de internos e diretores e estava presente no cotidiano da casa penal. Também foi investigada dezenas de vezes pela polícia. Passou mais de duas décadas neste entra e sai de unidades prisionais. Primeiro, visitando o ex-marido preso. Depois, transportando outras ‘guerreiras’ – como as mulheres se classificam. Há algum tempo foi morar em Campo Grande com o propósito de cuidar do pai. Ele faleceu, ela ficou.

Há poucos dias falei com Néia. Ela dizia sobre a felicidade em retornar para Araraquara. No fim de semana passado estava aqui na cidade; voltou para Campo Grande com a intenção de acertar as pontas, mas não deu tempo. A dona Néia, como era respeitosamente chamada interna e externamente no mundo penal, não ficará mais no bar quase um anexo simbólico da Penitenciária de Araraquara. A ‘loira do bar’, como era chamada também por policiais, não poderá acompanhar o crescimento dos dois netos e nem ver o desempenho dos três filhos.

ACidadeON/Araraquara  Por Claudio Dias

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